Caso eu cortasse relacionamentos, a vida seria mais simples, porque sempre no fim da relação eu me proibo de lembrar do que passou, evito de pensar na ultima pessoa e desvio das características da mesma. Sabe, é muito incômodo para o ser humano viver de desvios, de cortes, coisas assim, então, prefere continuar preso numa relação que não lhe traz felicidade, continua preso porque não vê motivos para separar, assim como não existem motivos para continuar.
Eu digo isso por experiência própria, quando rompi meu primeiro namoro, lutava contra qualquer coisa que me fazia lembrar de tudo que passou, lutava para não olhar, não gostar, não sentir nada que convinha a outra, então passei a não suportar a cor verde, por ser a cor preferida dela; passei detestar milk-shake de tutti-fruti, porque sempre que estavamos juntas, era este que pediamos; escondi todas suas cartas, porque não queria ler suas palavras; sempre que passava na ruela onde ficavamos sentadas olhando para o céu, desviava o olhar me obrigando a pensar: que rua horrível, prefiro andar o dobro do que passar por ela novamente.
Já, quando rompi meu segundo namoro eu odiava skinys pretas masculina, pois, foi com uma desta que o menino me deu as costas; eu não queria pensar em mar, pôr-do-sol, areia, surfistas, porque essas coisas ligavam-se a ele, pouco a pouco, nosso relacionamento se resumia nisso. Eu parei de beber vinho, nossos encontros eram temperados com este; preferia elevador as escadas, pois elas foram prova de muitos beijos. Passei detestar a palavra saudade, distância, pois foram estas as maiores provas que ele não valia nada; não queria mais saber de Ipanema, muito menos da Rua Maria Quitéria, menos ainda do Empório, nosso barzinho preferido. Aprendi me obrigar a destestar quaqluer coisa que me fazia bem no passado, qualquer pessoa cuja lembrança era a pessoa deixada para tras.
(...) mas, quando desmorou o terceiro relacionamento eu não sabia onde ir, pois todo meu bairro me fazia lembrar das coisas que passamos, das ruas onde beijamos, principalmente aquela ruazinha estreita perto de casa, que fora cúmplice do sentimento que estava por nascer por ela, enjoava apenas com o cheiro de sorvete de flocos, que era seu preferido; queria ser do contra, queria nadar contra a corrente, eu quis fazer tudo que ela detestava; passei então me disfarçar, mas ela nunca percebeu; nunca mais pintei minhas unhas de roxo, pois eu pintava-as apenas para agrada-la; então, o encanto se quebrou.
É complicado, até hoje, viver com esses desvios de rota, porque cansa, e chegará um dia que eu direi; basta ! então tudo que eu ver, cheirar, sentir, beber, os lugares que irei, tudo, absolutamente tudo não passará de qualquer coisa, qualquer coisa esquecida no passado, e fingirei que aquilo tudo jamais significou para mim.
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